Para refletir : Deixem as gordas em paz [Carta Capital 09/09/2013]

   

Preta Gil na janela do Copacaba Palace nesta manhã

Por um mundo onde “você emagreceu” não seja elogio e “você engordou” não seja afronta

“Você emagreceu!” é automaticamente interpretado como elogio. “Você engordou” é algo que ninguém aceita bem.
Você emagreceu!  Você está leve, está linda, está fina. Elegante. Está fazendo exercícios? Está comendo melhor? Parabéns!

Você engordou! Nossa, o que aconteceu? Relaxou? Está com problemas? É ansiedade? Já fez exames? Come muito doce?

Bom, preciso dizer que magreza não é sinal de saúde? Preciso dizer que
95% dos pacientes com anorexia são mulheres? Preciso dizer que a
anorexia é inclusive tratada como epidemia em alguns países, tendo a
doença alto índice de mortalidade (1 a cada 5 pacientes)?
Muitas mulheres convivem com essa neurose
diariamente. Muitas mesmo. Quantas amigas suas vivem de dieta? Quantas
amigas suas morrem de culpa por comer um pedacinho de bolo? Quantas
mulheres entram em depressão por causa de seus corpos depois da
gravidez? Quantas delas correm para a academia querendo entrar “em
forma” o mais rápido possível? Quantas tomam remédio pra emagrecer?
Quantas morrem de vergonha de seus corpos na praia? Quantas conseguem
ficar de boa ao vestir um biquini sem ter se esforçado pra estar “em
forma”? E quantas das que eram gordas e emagreceram agora tiram onda das
que continuam gordas? É claro que você pode
ir pra academia. É claro que você pode malhar, pode inclusive ser
musculosíssima, pois o corpo é seu. O que nós queremos é apenas que
todos os corpos sejam aceitos. Todos os corpos. Os malhados. Os
naturalmente magérrimos. E os gordos. Sim, as gordas querem ser aceitas e
felizes. E amadas e bonitas e tratadas como pessoas normais, não como
“aquela gorda”, estando isso à frente de tudo mais que ela for.
A quem argumenta que as magras também sofrem: sim, todas as
mulheres que estão fora do padrão de beleza sofrem. E as que não estão
também. Nunca está bom. Você nunca vai ser boa o suficiente. Você vai
pra sempre ter que pensar nisso. Mulher não pode engordar. Não pode ser
muito magra. E não pode envelhecer. É ridículo ouvir que “homem gosta de
ter onde pegar”, como se agradar os homens fosse o objetivo final da
vida de cada mulher. Todas sofrem. As muito magras, as negras, as
gordas. Não estamos jogando supertrunfo da opressão.CartaCapital
Mas há obviamente uma pressão maior sobre as gordas. Se for
negra e gorda, então, muito pior.  Vamos falar GORDAS, não “gordinhas”,
“fofinhas” ou “gordelícia”, porque GORDA não é xingamento. Uma pessoa
gorda não é pior do que uma pessoa magra. Nem mais preguiçosa, nem mais
relapsa, e nem tem menos “força de vontade”. Força de vontade PRA QUE,
minha gente? Pra se enquadrar em um padrão excludente? As gordas que
emagrecem são parabenizadas. Glorificadas. “Parabéns pela sua incrível
força de vontade!” Ninguém pensa na triste possibilidade de essa força
de vontade talvez estar vindo de uma terrível angústia por causa da
pressão social. É claro que a pressão nem sempre vem de fora pra dentro.
Você pode perfeitamente não se sentir bem em seu corpo e querer mudar;
como eu já disse, o corpo é seu. Mas saiba que isso é algo pessoal e que
é lamentável que isso vire uma cruzada chamando todas as pessoas que
são gordas para também entrarem “em forma”. Isso não deveria estar no
centro das nossas vidas. Nós não estamos aqui para enfeitar o mundo.
Somos mulheres, não adornos.
Veja bem, eu não estou usando um tom acusatório. Eu inclusive
sinto isso na minha pele, sempre senti. A vida inteira eu convivi com
essa paranoia. Tomei um milhão de remédios para emagrecer. Vivia
querendo ser magra. E eu nem era gorda! Porém me entendia gorda. Obesa.
Horrível. Eu precisava emagrecer. Chorava quando engordava um pouquinho.
Vivia pensando nisso, carregava a neurose como uma bigorna pendurada no
pescoço. A pressão era terrível. Eu achava que tinha que ser perfeita.
Achei que estava perfeita depois de uma crise em que fiquei dias sem
comer. Eu estava horrível,  estava um caco, mas estava esquálida e me
achando linda, com muita gente ao meu redor aprovando o absurdo. Eu sei
como é. Eu sei o que a gente passa. Não é fácil se livrar disso. Volta e
meia ainda tenho umas crises que podem até atrapalhar a minha vida
sexual. Ninguém está livre e a culpa não é de quem sucumbe; é muito
difícil conviver diariamente com todas as pressões de um mundo que vê os
gordos – mais especificamente as gordas – como pessoas piores.

Não
tem roupa pra gorda no Brasil. Não tem mercado pra gorda no Brasil.
Pessoas gordas sofrem preconceito em entrevista de emprego (li que
precisam fazer cerca de quarenta entrevistas a mais do que uma pessoa
magra). Não tem gorda na televisão, a não ser quando é no papel d’A
Gorda. Pessoas gordas sofrem preconceito no sistema de saúde. Pessoas
gordas sofrem preconceito no transporte público. Pessoas gordas não são
doentes. Pessoas gordas são apenas gordas.
(Já sei que vai ter um monte de gente dizendo que GORDURA NÃO É
SAUDÁVEL AS PESSOAS MORREM DE OBESIDADE AS PESSOAS GORDAS GORDAS GORDAS
MORREM GORDAS MORREM. A vocês apenas digo: busquem conhecimento, pois
não é bem assim. Tem muito gordo com a saúde nos trinques.)
Exaltar a beleza das gordas não é dizer que as magras não estão
mais autorizadas a serem belas. Não é tentar estabelecer um novo
padrão, uma ditadura da celulite, e sim aceitar uma democratização da
beleza. É não olhar feio quando a gorda quiser comer um xis-tudo, porque
o corpo é dela, consequentemente, a saúde também. Não use o argumento
da saúde para cagar regra no corpo alheio. Dificilmente fazem isso com
as magras. Dificilmente condenam meninas evidentemente doentes, pelo
contrário, elas têm a magreza elogiada e exaltada e são encorajadas a
continuarem com a loucura de não comer, de vomitar, de perder, perder,
perder. Não é uma preocupação com a saúde. É pura e simples cagação de
regra.
Anorexia é a primeira causa de morte entre
pessoas do sexo feminino entre 14-25 anos. E é esse padrão que causa
isso. Mulheres morrem porque querem ser magras. Mulheres morrem porque
não querem ser chamadas de gordas.
Gorda não é xingamento. Deixem as gordas em paz.
Deixem as gordas de biquíni. Deixem as gordas mostrarem a barriga,
deixem as gordas usarem o tamanho de saia que quiserem. Deixem as gordas
terem namorados sem pensar “nossa, esse aí podia conseguir coisa
melhor”. Gorda não é “coisa”. Gorda é gente.
Apenas deixem as gordas em paz…

por Clara Averbuck

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